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  • Julia Scheibel

COISA MAIS LINDA – A NOVA SÉRIE DO NETFLIX


Coisa mais bonita é você, Assim, justinho você, Eu juro Eu não sei porque você

A série do netflix Coisa mais linda é uma realidade atual. Não é sobre a bossa nova dos anos 60. É sobre a bossal necessidade de aprisionamento da luz feminina. É o medo do que gera, daquela que nutre, da que faz a vida ser uma vida.

Uma sociedade formada por um histórico de homens que podam e negligenciam a força do feminino, por medo ou por poder, sabe-se lá como isso é diferenciado. Ambos, medo e poder, são duas moedas de uma mesma face.

A história começa com uma mulher que é deixada pelo marido com um filho pequeno, e este ex some com todo o dinheiro. Daí, inicia-se a saga de um sonho: construir um clube de música no Rio de Janeiro.

Com essa vontade e, o apoio e sonhos compartilhados entre outras mulheres, constroem o enredo, apresentam as dificuldades delas ganharem espaço na sociedade dos anos 60.

Há diversos momentos da série que eu, sendo mulher nessa década de 2000, identifiquei: olhares castradores de homens (e de mulheres) para a força do feminino, olhares de repudio pela autonomia e independência da mulher solteira, medo eloquente de ver o diferente ganhar asas dentro da sociedade, medo dos novos caminhos.

Enfim, tentativas de manterem costumes contumazes, que manipulam e separaram pessoas, com o intuito da competição por um pódio: o pódio da classe, do statos quo.

A necessidade de imposição destes costumes (e não tradições) oprime o direito ao novo que se faz em prol de todos. Todxs.

E sobre mulheres…De base, somos a força geradora da vida. E nem digo que é preciso ser mãe par ter essa luz dentro de nós, não mesmo.

É preciso mais que apenas homens para crescermos como sociedade, florescermos como humanidade. É a nutrição interna de um poder feminino que une a leveza com a robustez de se fazer mulher. Sem estereótipos, apenas acalentando todos os modelos. Somos duais, somos todos necessários e possíveis de aportar o novo mundo.

Eu vi na série que, por meio do poder, do medo, da vergonha e dos sentimentos alheios ao desejo inerente (e inerte) de sonhar, acreditar e construir, que castram sonhos. Por sentimentos de posse, inveja, que abastecem a incredulidade e mascaram o medo de serem felizes.

Braços unidos e força interna compartilhada que gera e constrói com garra, unhas pintadas (ou não), saias rodadas ou tailleur, beijos ou abraços, que abraçamos causas e formamos uma sociedade. De diferentes e divergentes humanidades, e não unanimidades ou polaridades.

É preciso que os homens percebam a unidade que se faz quando assumimos o poder feminino, criador.

A série é um enfático dizer que a nossa sociedade continua na beira dos anos 60. Comendo pelas beiradas, matando a oportunidade criadora do feminino de cada um, por meio do agir castrador, punidor, medonho, medroso, de sermos tudo aquilo que queremos ser.

Os anos 60 continuam nos anos 2000. Mulheres seguem com salários mais baixos, com o preconceito em determinadas carreiras, com o olhar castrador de sua autonomia, mulheres maltratadas, homens espancando, feminícidio nos jornais, em casa, na cama.

Estão matando aquilo que nos sustenta, que gera. Estão espancando os nossos sonhos.

É a nossa força criadora que, negligenciada por poder ou medo – fontes da mesma raiz – tentam retirar a coisa mais bonita que é ser mulher: revista, ampliada e atualizada.

“Coisa mais bonita é você Assim, justinho você Eu juro, Eu não sei porque você

Você é mais bonita que a flor Quem dera, a primavera da flor Tivesse todo esse aroma De beleza que é o amor Perfumando a natureza Numa forma de mulher

Porque tão linda assim não existe a flor Nem mesmo a cor não existe E o amor Nem mesmo o amor existe Porque tão linda assim não existe A flor Nem mesmo a cor não existe E o amor Nem mesmo o amor existe”

Vinicius de Moraes e Carlos Lyra (Coisa mais linda – 1983)

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